Andreia Brandão

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Emoção, o combustível para a mudança

Talvez nada me tenha transformado tanto quanto compreender em profundidade, o funcionamento deste universo das emoções e como pô-las ao serviço da felicidade – minha e dos demais.

Considerando o impacto no comportamento humano distinguem-se dois grandes grupos: possibilitadoras e limitadoras. Numa visão mais holística do indivíduo dentro do coletivo, podemos chamar às primeiras unificadoras, que remetem para um paradigma de união, cooperação, e expansão. No fundo que nos faz sentir mais ligados aos outros e ao universo. Às segundas divisoras, que remetem para um paradigma e separação, de defesa e proteção perante esse mesmo universo.

Mas afinal o que está por detrás do surgimento de uma emoção? Porque é que pessoas perante as mesmas circunstâncias manifestam emoções diferentes? Se é o contexto que cria o ambiente emocional (estou zangada porque bateram no meu carro, estou nervosa porque vou fazer um exame etc.) como explicar estas diferenças entre pessoas? Será que alguns de nós são dotados de competências e outros condenados a viver sob domínio de emoções limitadoras irremediavelmente?

Há mais de uma década perguntas deste tipo começaram a germinar em mim. A verdade é que, nessa época, eu dependia do contexto para me sentir de uma determinada maneira. Acreditava que eram as circunstâncias da vida que detinham esse poder. À medida que fui buscando conhecimento e compreensão sobre mim descobri um novo paradigma no qual eu era co-criadora do meu estado interno.

Acredito atualmente que praticamos emoções em vez de simplesmente elas “nos acontecerem” e esta conclusão passa necessariamente pela neurociência: Com o passar do tempo vamos vivendo situações desafiantes, por vezes traumáticas, e vamos gerando memórias com uma determinada carga emocional. Sempre que, através dessas memórias, revivemos mentalmente episódios negativos do passado invocamos essas mesmas emoções que ocorreram no momento. Desta forma, digamos que nem precisamos que algo de negativo aconteça, basta-nos pensar sobre isso e naturalmente ativamos esses circuitos neurais. (1) Este mecanismo de pensar sobre o passado retroalimenta essas emoções também elas do passado, gerando e fortalecendo os mesmos circuitos neurais. No fundo pode dizer-se que estamos a treinar a nossa capacidade de estar tristes, zangados, frustrados, constrangidos ou noutro estado qualquer. Claro que por vezes acontecem no presente situações também elas desafiantes contudo, as referencias do passado já estabelecidas na nossa mente contribuem para uma resposta em bola de neve.

Se por num lado parece bastante limitante aquilo que fazemos a nós próprios, por outro, abre a porta a uma pergunta: Se eu posso praticar emoções que dividem será que eu posso praticar também emoções que unificam? A resposta é um sim inequívoco! Não posso mudar o passado porém, posso escolher a forma  como olho para esse passado! Costuma dizer-se que ou aprendemos com os episódios negativos e mudamos a perspetiva ou a probabilidade de vivenciar um episódio parecido é grande. Aprendemos ou repetimos!

Todos os dias na minha prática de coaching encontro pessoas que me dizem: “ Andreia até aqui eu já entendi mas como é que eu interrompo este padrão de pensamentos que vem do passado e me faz sentir assim?”. A transição de um paradigma de: “o que acontece na vida decide como me sinto” para “eu decido como me sinto e influencio o que acontece na vida” pode passar por diferentes abordagens de mudanças de crenças e emoções sob orientação de um profissional. Ao longo do tempo, perante os meus desafios pessoais e também na minha prática como coach uma coisa ficou clara: a importância de estar presente. Contando que uma parte grande do nosso dia estamos em piloto automático é fácil voltamos a relacionar-nos com o contexto a partir de um ambiente interno do passado. De facto, a literatura científica concluiu já que quando chegamos aos 35 anos cerca de 95% das nossas emoções, decisões, comportamentos são programas automáticos, inconscientes com base em experiências passadas. (2) Superficialmente não vemos relação e parece que detemos controlo consciente sobre o que emitimos para o contexto mas o que é certo é que a base são redes neuronais ativadas num determinado padrão.

Para tomar consciência do meu estado interno e sair do programa automático pergunto-me frequentemente: Como é que me estou a sentir agora? E como é que eu me quero sentir agora para lidar melhor com esta situação? No fundo identifico o recurso emocional que me seria mais útil para depois me orientar para lá. Se exige alguma disciplina? Obviamente. Haverá momentos em que preciso ser maior que a raiva, a insuficiência, o medo. Preciso de ser capaz de abdicar desses estados que parecem mesmo fazer parte daquilo que eu sou… Deste modo tenho a possibilidade de redesenhar esses circuitos neurais “treinando-me” para outro estado.

O conselho que deixo ao leitor é, num desses momentos, parar, respirar deixando silenciar a mente e observar como se está a sentir. Tomar consciência de que é apenas um estado mutável para depois agir na sua transformação.

BIBLIOGRAFIA

1- J. Dispenza, Evolve Your Brain, The Science of changing Your Mind, Health Communications, Inc. (2007)
2- M. Szegedy-Maszak , “Mysteries of the mind – Your unconscious is making your everyday decisions.” U.S. News and World Report (Feb 28, 2005)