Andreia Brandão

Artigos

O caminho da resiliência

Resiliência como comummente falamos dela, é um conceito importado da física para a experiência humana. Na sua definição original da física, Resiliência é a propriedade de um corpo recuperar o seu tamanho e forma original após ser deformado. Contudo na experiência humana é muito mais do que recuperar a “forma” que tínhamos antes de sermos “deformados” pela vida. Resiliência é a capacidade de nos transformarmos em alguém diferente daquela pessoa que existia antes do desafio. Alguém resiliente é alguém com uma mala de ferramentas físicas, mentais, emocionais e espirituais capaz de dar resposta aos desafios da vida. Segundo a HeartMath® Institute é “a capacidade de um indivíduo se preparar, recuperar e adaptar-se face ao stress, à adversidade ou ao desafio”. (1)

Esta perspetiva faz da resiliência uma forma de viver o dia-a-dia, muito para além dos eventos pontuais de grande stress. A verdade é que prestamos muito mais atenção aos grandes desafios da vida: grandes conflitos, perdas, escassez , doença de grande risco de vida e sofrimento, para citar alguns, contudo o que deixa a sociedade ocidental atual, em massa, sem recursos é o stress crónico: aumento dos erros laborais, acidentes, reações negativas, doença crónica, conflitos e compromisso da performance no geral. É como se estivéssemos a cozinhar em lume brando sem nos apercebermos e por isso não criando estratégias práticas de mudança num mundo atual, em que as estratégias do passado desenhadas para situações agudas, não são adequadas nem suficientes para os desafios contínuos do dia-a-dia.

Em certas áreas da vida há uma tendência para acreditar que o stress é inevitável. Lido com essa perspetiva frequentemente no meu trabalho como Coach. Esta crença tende a levar ao desinvestimento em possíveis soluções mantendo o “não há nada a fazer “ como pano de fundo para a vida e assim, um indivíduo que já lida com um níveis elevados de stress crónico, despoleta ainda mais stress pela sensação de impotência perante a vida.

E se o leitor pensar como eu, ao saber que ser resiliente é ter essa mala de ferramentas cheia de recursos para lidar com os desafios, vai concerteza querer ter uma! Eu quis há muito tempo e entre outras coisas pude perceber que, se quiser, continuo a torná-la maior à medida que as experiências da vida acontecem. As perguntas inevitáveis são: “o que tem essa mala?” “Que características são essas que possui um indivíduo resiliente?”… A primeira que gosto de referir é auto-consciência: começar por perceber a cada momento como me estou a sentir e onde está a minha atenção. A verdade é que passamos habitualmente tempo a pensar sobre a vida, no entanto, em diversas situações orientados apenas para os acontecimentos em si, para o que perdemos, sofremos, não fomos capazes de ser ou fazer. Ficamos apenas a reviver mentalmente acontecimentos que nos desafiaram os limites do bem estar, absortos nas emoções limitadoras que deles derivam.

Quem nunca deu por si tomado pela raiva, tristeza, insuficiência por um acontecimento para depois perceber que conseguia soluciona-lo? E não é que o indivíduo resiliente deixe de ter pensamentos e emoções negativas, a grande diferença reside na autoconsciência sobre eles, que abre a possibilidade de mudança.

Citando novamente dados do Heartmath® Institute o grande skill da pessoa resiliente é a capacidade de se auto-regular emocionalmente a partir dessa consciência de como se está a sentir. Poder transformar em tempo real uma emoção limitadora noutra mais possibilitadora, adequada e útil ao contexto é altamente transformador.

Destas duas capacidades nascem depois outras, como a perspetiva ampla do desafio onde cabem significados positivos, aprendizagens e inevitavelmente uma abordagem centrada nas soluções em vez de nas dificuldades ou no impacto negativo que ela teve na nossa vida. Quando nos centramos nas soluções, ainda que nos pareça que o nosso campo de influência é muito pequeno, tendemos a realizar ações que modificam o contexto e tornam esse campo de influência maior – uma intenção global de resolução mas com uma abordagem “step by step” em que cada pequena mudança é reconhecida e valorizada. Frequentemente oiço de pessoas que superaram doenças frases como “aprendi muito”, “sou uma pessoa diferente hoje depois disto”.

Está também habitualmente presente um sentido de responsabilidade sobre o seu bem-estar e recursos como a proatividade: passamos do “já fiz de tudo” para o “será que posso fazer algo mais?”.

Criatividade, aceitação e confiança estão presentes, o que torna a comunicação mais autêntica e corajosa permitindo uma melhor conexão aos demais.

É difícil determinar que recursos destes chegam primeiro. O que é certo é que uns levam aos outros e o caminho é diferente para cada ser humano. Acredito que a resiliência é mais como uma capacidade que resulta do ”funcionamento” integrado de um universo de recursos internos. Ao invés de estanque é mais uma dinâmica, o que faz com que tenhamos momentos e circunstâncias onde acedemos a ela facilmente e outros nos quais nos é exigido mais treino e consciência. Maravilhoso é conhecer as ferramentas e usá-las numa base regular, numa atualidade em que já percebemos que mais do que fórmulas mágicas ou eventos únicos a transformação parece-se mais com um caminho, que dura a vida toda, do que com um bilhete de lotaria com que sonhamos.

ANDREIA BRANDÃO
Coach, Hipnoterapeuta, HeartMath®Coach

Apaixonada pelo desenvolvimento pessoal integra na sua prática como Coach diversas ferramentas de transformação, ajudando os seus clientes a encontrar formas mais possibilitadoras de se relacionar com os desafios da vida.